domingo, 24 de setembro de 2006

Fada


Quem és tu,
graciosa mulher de riso solto e olhos rasgados,
quem escondes por detrás desse rosto de menina,
qual é o gosto da tua sina?

Que palavras albergas no teu coração?
Que mágoas,
que névoas te arrastam pela mão?

Teu porte de rainha,
qual Cleópatra misteriosa
que do seu alto pedestal reina só,
rodeada,
isolada,
majestosa...

Serás um anjo caído,
uma musa encarnada,
inspiração de poetas,
de homens,
mulheres,
de ascetas?

Serás sempre esta Fada
que me ilumina a estrada
por onde me perco,
navegando por Neptuno,
o destino incerto,
num mar sem rumo,
horizonte a céu aberto.


Palavras do Mestre


Pela sua própria natureza, o homem procura continuamente o progresso aí reside um dos aspectos da sua força, pois que, sem esse progresso, a condição humana estagnaria.Por outro lado, a sua fraqueza reside, em parte, no confundir novidade com progresso. Ele fica maravilhado com tudo o que é novo, tudo o que brilha. Devido a este carácter superficial, o homem afasta-se progressivamente daquilo que procura, sem se dar conta do seu erro. É necessário, continuamente, recuar, voltar á origem das coisas, nao se imobilizar, não para se contemplar, mas para melhor avançar sem cometer erros. Os maiores mestres modernos (Ueshiba, Kano, Funakoshi) renovaram as Artes Marciais, preservando o seu sentido fundamental. É esta a razão pela qual nós pretendemos basear o nosso trabalho, o nosso esforço, as nossas pesquisas sobre o aspecto tradicional do Karate afim de o fazer evoluir no contacto com a vida de hoje.

KARATE É BUDO

Há muitas pessoas que abordam superficialmente o problema e classificam os participantes do Karate em duas categorias: os desportistas e os místicos.Para eles, só os desportistas procuram a eficácia, os outros praticam Karate como um crente que vai à igreja. Esta concepção simplista é totalmente errada porque ignora o verdadeiro sentido do Budo. O samurai dos tempos antigos vivia num perigo constante. Para ele, possuir uma certa força e uma certa técnica era apenas um ponto de partida, não era suficiente. A sua vida era um combate contínuo.Estivesse a tomar chá ou a passear numa ruela, tinha que estar sempre pronto a defender a sua vida, a vencer um ou mais adversários. Para ele, estava fora de questão considerar a prática das Artes Marciais como um treino desportivo, ou o combate como uma competição com árbitro e público.O samurai devia atingir a eficácia para além de qualquer técnica.É por isso que ele cultivava essencialmente o seu instinto, o seu sexto sentido.Miyamoto Musashi, o célebre samurai do séc. XVII, morreu no seu leito, tendo vencido cerca de seis dezenas de combates.Conta-se que era capaz de avaliar o valor de um adversário só pela sua maneira de caminhar ou apenas tomando um chávena de chá com ele.

A PROCURA DA EFICÁCIA

Desenvolver um sexto sentido, conhecer o adversário, não são coisas fáceis de se adquirir. Em Karate, nao se pode atingir o espírito sem se passar pelo corpo ou vencer um adversário sem primeiro se vencer a si próprio.É necessário vencer-se a si próprio. Primeiro, o corpo: é preciso "parti-lo", tirar-lhe toda a resistência, depois modelá-lo, formá-lo. Daí a necessidade de um treino extremamente duro. É preciso evitar a facilidade, procurar a dificuldade, ir além dos próprios limites. É só nessa altura que nos conhecemos verdadeiramente e que os nossos sentimentos aparecem (ódio, violência, preguiça, impaciência...). Vencê-los será, então, extremamente simples: pelo esforço chegaremos a um conhecimento de nós próprios, depois, a uma harmonia com o universo e, em seguida, ao silêncio. Nesse silêncio aperceber-nos-emos do adversário, da sua presença, do seu corpo, da sua respiração, das suas intenções.Esse adversário tentará quebrar a nossa harmonia. Decorrerá um instante entre a sua decisão e o seu movimento. É durante este intervalo de tempo, por mínimo que seja, que nós agiremos, ou seja, antes dele.Em BUDO, o combate começa assim que nos apercebemos da presença agressiva do adversário e termina assim que ele começa o seu movimento.Num verdadeiro combate de BUDO, há muito poucos movimentos.
O homem verdadeiramente superior deve ser capaz de dar a paz.

A VIA PELO KARATE

É,sem dúvida, interessante praticar o Karate como um desporto, mas sê-lo-á ainda mais se tentarmos ir mais longe, se procurarmos uma eficácia ainda maior, que nos permitirá nessa procura, conhecermo-nos e lutar contra os nosso defeitos, conhecer os outros e amá-los, atingir uma unidade interior e projectá-la para o universo exterior e, quem sabe, contribuir, a nosso modo, para a paz e para a vida.

Tetsuji Murakami
1927 - 1987

Amigos

Amigos são flores,
são almas,
são amores,
são palmas,
são alegrias,
são dores,
meu Deus...
os Amigos...são estrelas,
são guizos,
são cores,
verde, amarelo, azul...em frisos,
...os Amigos...
são Anjos caídos
são sabores proibidos,
são perfumes, traídos.
são luz,
são faróis de barcos perdidos,
são lágrimas,
são risos,
És Tu,
é Ele,
são Vocês,
Sou Eu...Nós...
Sempre...
Amigos...


Singularidades


Ao longo da nossa caminhada, todos nós procuramos alguém; alguém procura por nós, e por vezes, nas raríssimas vezes em que os nossos sentidos estão alerta, como que espicaçados por um qualquer Anjo que, numa curva, encarou o nosso olhar triste e acende uma luz...dá-se o encontro...
Não de corpos, mas sim de almas, de corações, de risos, de esperança.
Nesse encontro, o pensamento sentido revela-se, lágrimas brotam sinceras, o abraço é apaixonado, as palávras desnecessárias.
É a plenitude da cruzada das nossas vidas, o espaço transforma-se num lugar mágico, onde, a cumplicidade implícita/explícita é recomeço; abstracções concretas no lugar onde a espera, dolorosa por um momento, solta as asas da imaginação, abençoada pela inocência de quem descobre o amor e se entrega ao aconchego do qual apenas conhecíamos os reflexos da sua quietude.
É o abandono dos nossos sentidos á nova identidade, deixando para tràs as raízes que nos susteram e, em devaneios, nos leva numa viagem intemporal, aos recantos da nossa existência.
Singularidades da nossa alma, ao olhar para dentro de nós, qual aguarela escondida nas sensualidades da nossa vida...