domingo, 24 de setembro de 2006

Palavras do Mestre


Pela sua própria natureza, o homem procura continuamente o progresso aí reside um dos aspectos da sua força, pois que, sem esse progresso, a condição humana estagnaria.Por outro lado, a sua fraqueza reside, em parte, no confundir novidade com progresso. Ele fica maravilhado com tudo o que é novo, tudo o que brilha. Devido a este carácter superficial, o homem afasta-se progressivamente daquilo que procura, sem se dar conta do seu erro. É necessário, continuamente, recuar, voltar á origem das coisas, nao se imobilizar, não para se contemplar, mas para melhor avançar sem cometer erros. Os maiores mestres modernos (Ueshiba, Kano, Funakoshi) renovaram as Artes Marciais, preservando o seu sentido fundamental. É esta a razão pela qual nós pretendemos basear o nosso trabalho, o nosso esforço, as nossas pesquisas sobre o aspecto tradicional do Karate afim de o fazer evoluir no contacto com a vida de hoje.

KARATE É BUDO

Há muitas pessoas que abordam superficialmente o problema e classificam os participantes do Karate em duas categorias: os desportistas e os místicos.Para eles, só os desportistas procuram a eficácia, os outros praticam Karate como um crente que vai à igreja. Esta concepção simplista é totalmente errada porque ignora o verdadeiro sentido do Budo. O samurai dos tempos antigos vivia num perigo constante. Para ele, possuir uma certa força e uma certa técnica era apenas um ponto de partida, não era suficiente. A sua vida era um combate contínuo.Estivesse a tomar chá ou a passear numa ruela, tinha que estar sempre pronto a defender a sua vida, a vencer um ou mais adversários. Para ele, estava fora de questão considerar a prática das Artes Marciais como um treino desportivo, ou o combate como uma competição com árbitro e público.O samurai devia atingir a eficácia para além de qualquer técnica.É por isso que ele cultivava essencialmente o seu instinto, o seu sexto sentido.Miyamoto Musashi, o célebre samurai do séc. XVII, morreu no seu leito, tendo vencido cerca de seis dezenas de combates.Conta-se que era capaz de avaliar o valor de um adversário só pela sua maneira de caminhar ou apenas tomando um chávena de chá com ele.

A PROCURA DA EFICÁCIA

Desenvolver um sexto sentido, conhecer o adversário, não são coisas fáceis de se adquirir. Em Karate, nao se pode atingir o espírito sem se passar pelo corpo ou vencer um adversário sem primeiro se vencer a si próprio.É necessário vencer-se a si próprio. Primeiro, o corpo: é preciso "parti-lo", tirar-lhe toda a resistência, depois modelá-lo, formá-lo. Daí a necessidade de um treino extremamente duro. É preciso evitar a facilidade, procurar a dificuldade, ir além dos próprios limites. É só nessa altura que nos conhecemos verdadeiramente e que os nossos sentimentos aparecem (ódio, violência, preguiça, impaciência...). Vencê-los será, então, extremamente simples: pelo esforço chegaremos a um conhecimento de nós próprios, depois, a uma harmonia com o universo e, em seguida, ao silêncio. Nesse silêncio aperceber-nos-emos do adversário, da sua presença, do seu corpo, da sua respiração, das suas intenções.Esse adversário tentará quebrar a nossa harmonia. Decorrerá um instante entre a sua decisão e o seu movimento. É durante este intervalo de tempo, por mínimo que seja, que nós agiremos, ou seja, antes dele.Em BUDO, o combate começa assim que nos apercebemos da presença agressiva do adversário e termina assim que ele começa o seu movimento.Num verdadeiro combate de BUDO, há muito poucos movimentos.
O homem verdadeiramente superior deve ser capaz de dar a paz.

A VIA PELO KARATE

É,sem dúvida, interessante praticar o Karate como um desporto, mas sê-lo-á ainda mais se tentarmos ir mais longe, se procurarmos uma eficácia ainda maior, que nos permitirá nessa procura, conhecermo-nos e lutar contra os nosso defeitos, conhecer os outros e amá-los, atingir uma unidade interior e projectá-la para o universo exterior e, quem sabe, contribuir, a nosso modo, para a paz e para a vida.

Tetsuji Murakami
1927 - 1987

Sem comentários: