sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O Abraço


"Só pelo abraço,
valeu a pena..."

...o falar mudo dos olhos brilhantes,
paisagens que criamos,
como dois viajantes,
sem rumos nem destinos,
sem bagagens, como meninos
do mundo surdos,
sem nós,
sózinhos...

...apenas Eu e Tu,
nossos olhos e mãos discretas,
de Almas e Mentes libertas
o resto:
tremuras incertas,
corações de palmas abertas,
batimentos de poetas
se fundiram numa cena
onde fizemos patetas
de Fellini, no cinema...

...para eles ficou o cansaço
de mil noites sem dormidas
onde o Amor se fez abraço
de bocas coladas,
perdidas...

...e quando caiu a cortina,
luz no palco,
fim de cena,
ele falou mais alto,
o Abraço,
valeu a pena...

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Tempo


Se pudesse parar o tempo
e trazer-te junto a mim
seria num preciso momento
em que,
tão junto que longe estamos
que sem jeito nos tocamos
como um propósito com fim...
então parava o tempo,
sustíamos a respiração,
e nos braços deste momento
não mais conseguiria o tempo
devolver-nos a razão!

sábado, 11 de agosto de 2007

Se eu morrer novo



Se eu morrer novo,
sem poder publicar livro nenhum,
sem ver a cara que têm os meus versos em letra imprensa
peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
porque as raízes podem estar debaixo da terra
mas as flores florescem ao ar e á vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
de uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
nem procurei achar nada,
nem achei que houvesse mais explicação
que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
ao sol quando havia sol
e à chuva quando estava chovendo
( e nunca outra coisa ),
sentir calor e frio e vento,
e não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
e sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Alberto Caeiro
Poemas Inconjuntos

http://www.revista.agulha.nom.br/fp274.html
http://olhares.aeiou.pt/ilha_dos_amores8/foto1381708.html

Beijo


Gostava de ser sangue
misturar-me no ADN das tuas veias
percorrer o teu corpo e,
com meus lábios de plasma,
beijar-te as mãos,
os olhos,
a Alma...

...ser a velocidade furiosa das tuas emoções
e aflorar teu rosto,
latejar nos teus sorrisos e,
lânguidamente,
viajar nos teus sentidos...

...subitamente,
acordar num frémito de desejo
e jorrar desatinadamente
nas emoções de um beijo.

E quando soassem ao longe,
as notas de um violino,
tu beijarias meus olhos,
transportando-me na carícia
de um Amor sem destino.


segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Recantos

Há uma nuvem branca
frente á minha janela
e a luz resplandece
embalada nos braços dela

e no teu gesto,
e numa tela,
pintam-se amores,
do poeta as cores,
num barco á vela,
sem farol á vista,
navegando,
tua Alma de artista,
monta na Lua brilhante,
rasga a nuvem,
voa adiante...

e a chuva cai como choro
de uma canção que decoro
encostada nos umbrais,
ao saber que és um sonho,
uma tela,
nada mais...