Os vários estados do
sentir
Conversa puxa conversa e, de entre vários temas, há um que
nos persegue há décadas: O que é Amar? O que é Paixão? Amar significa estarmos apaixonados?
Eu divido o sentir em vários estados:
O “gosto de ti” –
aquele estar porque se está bem, até se gosta! Não nos faz mal…também não é que
nos faça propriamente bem mas, como mal não faz, estamos! Gosto de ti porra,
estais a ver?! Há quem lhe chame de “amizade colorida”, não gosto
particularmente da expressão mas, há falta de melhor…fica! Tem por resultar em
verdadeiras amizades longas e profundas pois, tendo a vantagem de não haver
nada a cobrar nunca, de parte a parte, e da cena ser só ocasional e entre
cabecinhas bem resolvidas, quando termina fica o que deu origem, uma amizade á
séria, daquelas que sabemos que está lá mesmo que esteja longe da vista.
O “tesão” – é aquela
cena de sempre, logo que os olhos caem uns nos outros não se deslargam mais,
vai tudo até ao fim, numa consumição de chamas até o incêndio se extinguir…e
sempre, sempre igual, não tem assunto, só sexo, puro, do bom, mas nada mais
além disso. Por vezes deriva para Paixão, dá em casamento e acaba…mal!!! Não
tem base alguma, nem de apoio nem de continuidade…é como o fósforo, só dura
enquanto há pau…e ele os há longos…infelizmente…nestes casos, pois depois não
entendem porque a “coisa” deixou de ter sentido, nem o sexo já é bom, diálogo
impossível, recriminações constantes…tolerância zero. È tipico ser com
parceiros já em relações do tipo “estou porque sim ou porque nem sei” e tem por
durar, dependendo do “pau”, algum tempo pois acaba sendo um escape da rotina do
frigorífico…a tradicional pulada de cerca já nos “entas” quando dá muito
trabalho procurar parceiros/as alternativos/as
e então mantém-se o mesmo ou mesma um bom par de anos…também acaba mal…vira,
muitas vezes, um segundo casamento pois a mulher terá tendência para “encostar”
o cromo á parede e este, já fartinho da prisão de casa, quer é dar de frosques
mas enquanto a queca for jeitosa, vai-se deixando ficar…
O “estou porque sim
ou porque nem sei” – este é o mais comum e o mais complicado… começa,
geralmente, porque se é amigo de escola, ou do amigo da amiga ou vice-versa, ou
os pais “fazem gosto”…não tem “gosto de ti” nem “tesão” e a malta vai ficando
por hábito e rotina e também porque, a coisa já dura há tanto tempo que o passo
seguinte é o tradicional casamento por obrigação…resulta, sempre, em mulheres
deprimidas e maridos infiéis, não só a elas, mas a si mesmos…não se deram tempo
de ser felizes…responsável pelo florescente negócio do antidepressivo e da
pastilha p’ra ansiedade…
A “paixão” – ora cá
estamos a entrar na dita cuja, a tida como causadora de todos os males…ou não!
Esta surge apenas para confundir os cérebros, nada mais que isso! Pode derivar
de um tesão mal resolvido e, por carência do momento, levar o people a pensar
que está “apeixanado”…a única diferença entre ela e o tesão é que aqui há
aquela dependência assustadora, tipo droga, não se consegue pensar em mais
nada, acha-se o outro o nosso mundo, sem o qual não se sobrevive, o coração
enfarta a cada momento, tudo que o outro diz é interpretado das mais estapafúrdias
formas, de maneira a satisfazer os nosso devaneios mentais e físicos e a cena
da traição está presente em cada esquina…não tem base alguma, foi alguém que
nos apresentou ou os próprios tomaram a iniciativa por irresistência mútua, a
cena colou de tal forma que não dá para despegar, seja lá como for! Tem sempre
resultados catastróficos porque dá azo ás maiores confusões cardíacas e de
Alma, e isso é sério, muito sério! São aqueles casamentos que derivam em
violência física, não se compreende o outro e só se sabe o que ele é e nada do
que foi…pudera! Sem bases de crescimento onde pôr um pé, uma mão! Acabado o
tesão, o que fica? Pois, nada…e aí começam as acusações diárias o atirar á cara,
as cenas de drama conjugal, geralmente da mulher com traços de tragédia grega…esta
paixão é a mãe da maioria das nossas crianças de hoje…a coisa só termina bem
quando se compreende que o ardor acabou, está gasto e o melhor é separarem-se
com um até qualquer dia destes, mas isso é muito raro!
O “amor” – “é fogo
que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, é um descontentamento
descontente, é um andar perdido entre a gente.” Se querem saber a minha humilde
opinião, e embora eu considere Camões o maior poeta de todos os tempos, acho
que, neste campo, o rapaz estava a fazer a tradicional confusão com paixão, o
que é bastante comum…O Amor, tal como tudo que é eterno, não se anuncia nem faz
alarido de que veio para ficar. Apenas chega, instala-se e nunca mais se vai
embora, e quando digo nunca é mesmo assim, para toda a vida e ainda para as que
iremos viver a seguir, não nos abandona mais e fica connosco eternamente. Chega
de mansinho, na forma de um amigo dedicado que nos estende a mão, o ombro e o
que mais houver, nunca nos promete nada nem pede nada em troca, a felicidade do
outro é o mais importante, nem que para isso seja longe de nós e com outro
alguém! É verdadeiramente altruísta, genuíno, companheiro e sempre presente. Nada
de enfartes nem de sensações de perda, apenas paz, tranquilidade e aquela
certeza de que estamos em casa. Adivinha cada um dos nossos pensamentos e
satisfaz-nos a cada segundo com momentos de puro deleite, seja de risos de
lágrimas, de alegrias ou tristezas, nunca nos largando a mão, mesmo longe está
sempre perto e recebe-nos sempre de braços abertos. Quando é preciso, puxa-nos
para o chão, acorda-nos para a realidade, dá-nos uns valentes tabefes, mas
sempre com amor…quando se intensifica sente-se aquela saudade da ausência,
aquela dor de parte de nós que não está mas que facilmente se cura com um
simples telefonema ou uma troca de olhar sempre cúmplice, sempre sabedor.
Cumplicidade é a palavra de ordem aqui, á a outra base do amor, é o passar á
segunda parte, o falar com os olhos, um toque leve nas mãos ou um gesto pleno
de significado que só os dois reconhecem como seu. A 1ª parte...ainda não
perceberam??? Pois tá claro, é a mais pura e sincera e verdadeira amizade! Para
mim, Amor é amizade, um não coexiste sem o outro, nem nasce, nem cresce, nem
faz sentido…senão pensem comigo, o que sentem pelos filhos, pelos pais, pelos
verdadeiros amigos? Pois é…ao invés de usarem a palavra amigo em vão passem a
usa-la com discernimento e, estejam atentos pois, nunca se sabe se aquele amigo
não será o nosso verdadeiro Amor! Nem sempre passa á segunda parte, por que não
tem de passar ou porque a pele não combina, ou porque, o mais provável, é arrebatado
por uma qualquer paixão amalucada e depois perde-se…fica a amizade que é sempre
fantástica e de preservar. Mas nos raros casos em que as almas se conjugam e
falam a mesma língua…deve ser o tal viver nas nuvens…digo deve ser porque ainda
não o vivi pois acredito que só nos aparece uma vez em cada
vida e, como é eterno, quando o deixamos passar, não volta, só na nossa próxima viagem intemporal...
Em conclusão, querem amar e ser amados? Então comecem por ser
verdadeiros amigos de quem vos estende a mão…
21 de Abril, 2012
19h

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