Desculpa ter sido mais um sobrevivente acomodada,
desculpa por não te ter deixado nunca partilhar algo comigo,
desculpa ter evitado o teu carinho, subtilmente dado, mas sempre com verdade.
Desculpa não te ter distinguido na multidão,
desculpa não te ter tratado como alguém diferente, único que és para mim,
desculpa tropeçar em ti porque não te via estava cega!
Desculpa ter-te amado apenas através dos teus recantos, em pensamento sentido, porém esquecendo que foras tu o seu autor.
Desculpa ter-te ignorado quando precisaste de mim,
desculpa não te ter ouvido quando gritaste que eras diferente,
desculpa quando, ao ver-te partir, não fiz nada,
desculpa premiar o teu carinho com singularidades,
desculpa não ter aproveitado o vazio dos dias quando mo mostraste,
desculpa ter transformado os nossos momentos únicos em mais um cruzar de braços,
Desculpa por não ter visto que apenas te querias mostrar, despido de qualquer rótulo, de mãos nuas de pincel,
desculpa se te desviei da tua cruzada individual, sendo caminhante ao teu lado,
desculpa se te vi como algo divino, algo intocável, quando apenas és como eu,
desculpa por me afastar de ti, estando tu mesmo ao meu lado, as nossas mãos tão próximas, quase se entrelaçando,
desculpa ter-te gritado a minha simples amizade, quando já te estava a amar devagarinho, tão devagarinho que nem me apercebi,
desculpa ter-te dado conselhos quando tu querias o meu braço á tua volta,
desculpa não ter corrido pra ti quando os teus olhos imploravam a minha presença verdadeira,
desculpa nunca ter sabido como tocar-te, abraçar-te, acarinhar-te, beijar-te,
desculpa te ter mentido sempre que estava infeliz,
desculpa não ter confiado em ti, quando nada mo impedia,
desculpa se te magoei, seja com gestos, palavras ou ilusões,
desculpa o medo de falar contigo sobre este meu sentir,
desculpa não te dizer, olhos nos olhos, que já fazes parte da minha vida,
desculpa se não sei pedir desculpa...
Desculpa se insisto em agarrar a tua mão, que me levou a sonhar; só agora descobri que era tua,
desculpa se eu fugir, estarei sempre a fugir de mim mesma, nunca de ti,
desculpa se não te pedir ajuda no momento da minha queda, nunca te quererei magoar,
desculpa quando parecer que me perdeste, fui eu que me perdi, esqueci o caminho e não sei como voltar a encontrar-me, mas nunca me perderei de ti,
Serei o cigarro esquecido quando, lentamente, a cinza vai quase beijando o cinzeiro, num fio de fumo azulado,
Serei aquela música que teima em não te largar até que tu te deixares adormecer no embalo das suas notas,
Serei este ou aquele poema que eu só fiz porque tu mo pintaste com a tua alma,
Serei a mão que te estende o sonho que o momento te inspira...
...e, como há sempre um momento em que a dúvida pode ser concreta, em que o que é pode deixar de o ser, em que a perda é a realidade absurda que se nos depara, como se nada valesse a pena e o pano caísse, imutável, sobre o palco das nossas vidas, eu só quero que saibas quem eu sou...
Por vezes irei duvidar do ser que me habita, então, aí, serei apenas esta página escrita onde me dispo pra ti...
23 de Janeiro de 2005 - 23:22h

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