Nunca quis que o mundo me visse!
Escondi-me dele! E mais, escondi-me de mim própria; mais ainda : matei a criança viva em mim, perdi a inocência...
Tornei-me vil, cedi á pressão abjecta dos homens de má fé, deixei-me levar no arrastar das águas insalubres da devassidão humana.
Perdi a sensibilidade, vivi de "bom senso", vivi da vã filosofia, aquela que se costuma guardar em mentes de lixeiras públicas.
Sujei-me, "prostituí-me", deixei-me vender, eu mesma me vendi e por nada, pelo simples acto de vender, por não saber que mais fazer para, cada vez mais, me diluir na multidão, para me tornar, cada vez mais insignificante, até desaparecer, até nem sequer restar uma sombra de mim, eu, a minha essência, quem realmente sou, o que já esqueci...até não me identificar com nada nem com coisa nenhuma, até precisar de sangrar apenas para saber que estou viva, que sou real!Então renasci,renasci para uma vida cheia de ilusões, de sorrisos plastificados, de mãos sujas e peganhentas de tantas outras terem tocado, sem verdadeiramente saberem que matavam, destruíam!
Não edifiquei, não construí, não criei, não vivi, o tempo passou por mim como gotas de chuva de inverno, como caídas folhas de outono; deixei o sol de verão gelar-me a pele, fiquei insensível ao passar do tempo, das estações, dos dias, das horas, de mim...
Vi a minha imagem a afastar-se e senti-me forte, acreditei que tinha conseguido atingir a mais difícil de todas as faculdades : separar-me de mim própria, sem mais olhar para trás; deixar aquela criança idiota partir de vez da minha vida, e poder reerguer-me como adulta, independente, inteligente, auto-confiante, sem mais precisar de nada nem de ninguém, vencer o mundo dos homens, sendo mais e melhor que eles e, finalmente, conseguindo provar que o caminho se faz sozinho, esquecendo-me de caminhar...
Fiquei só! Terrivelmente só, dolorosamente só,pateticamente só e acreditei na minha maravilhosa solidão, sentido-me vitoriosa, triunfante, marchei sobre tudo e todos, ostentando o meu estandarte à magnitude da solidão.
E todos me admiraram!
Tola! Pobre criança assustada que perdi de vista
Infeliz aquela que venerei e me submeteu aos seus caprichos e desejos, roubando tudo o que podia em mim, do meu ser tão frágil, carente, inocente, inocente, inocente...e não quis que tu me visses!
Acreditei na minha maldade inexistente, culpei-me dos pecados do mundo e tornei-me naquilo que sou : nada!
Perdi-me na multidão, igual entre os iguais - morri e acreditei no fado, na sina de "pra sempre ser infeliz"!
Agarrei-me ás palavras dos poetas malditos, dos escritores suicidas, com as suas palavras de sedutor veneno e, como Caeiro, acreditei que o verde dos campos era diferente para mim, que já nada valia a pena; apenas as águas, as plantas, o céu , as estrelas, me entendiam.
Deixei de acreditar no homem, deixei de acreditar em mim.Tal como tu, refugiei-me nos meus sonhos, nas ilusões de adolescente, em histórias de amor que não me pertenciam, chorei com as tristezas dos outros, regozijei-me com as suas alegrias, vivi em outros corpos, caminhei com pés que não eram meus, vi tudo com olhos de estranhos, saboreei paladares violadores, toquei corpos com mãos irreconhecíveis, usurpei as almas dos que me rodeavam, deixei-os mortos,amorfos; suguei-lhes o sangue até ao tutano...e não fui feliz!
Nunca soube que o caminho se faz caminhando; sempre recusei mãos que se me estendiam, sempre me reergui sozinha, sempre me ri dos empurrões e rasteiras, mostrando quão fácil era voltar a olhar para o alto...e voltei a ficar só, completamente, absolutamente, racionalmente só!
Confortei-me com a elevação do meu espírito, auto emocionando-me, maravilhando-me com a divindade do intelecto e as suas incríveis capacidades...e voltei a ser feto, gerei-me a mim própria mas, abusei de mim, torturando-me com jogos mentais feitos comigo mesma, desafiando a irracionalidade.
Enlouqueci! Adorei-me através do ódio que tinha em mim, revoltei-me no meu reflexo, nunca mais me olhei no espelho, perdi-me de mim!
Reencontrei-me em recantos, acordei de anos de solidão desgastada e voltei a sentir o sangue a correr nas veias e o corpo a latejar, como dando as boas vindas ao meu despertar para o sonho que me estendeste...e dei-te a mão...
23 de Janeiro, 2005 - 22:30h
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